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terça-feira, 8 de março de 2011

A ressaca que acabaria com todas as ressacas

O fim do copo parece ser sempre mais revelador do que o começo. Desde que comecei a beber, notei que cada golada surgiria como a promessa de um novo amanhã, ou um novo hoje com um novo motivo para ter algo novo amanhã. Algo assim. Desde o começo do meu alcoolismo, essa lógica nunca se escondeu de minhas vistas. A odisseia alcoólica brinca com seus desejos mais nefastos, tornando-o um guerreiro lendário envolvido nas mais diversas tretas (ou batalhas) nesta vida.

E o amanhã seria um brinde numa larga mesa de madeira com javali e costelas de porco servidos no meio e não haveria nenhum vestígio de frutas (embora elas ajudassem na ressaca, ninguém quereria ser um sanguinário guerreiro herbívoro, precisamos admitir esse fato), somente a pura grosseria nórdica. Ao seu lado, todos os seus amigos alcoólatras que beberam -batalharam- na noite anterior estariam acompanhados por duas virgens, enviadas diretamente da vila nórdica mais distante para diminuir a dor e o sofrimento pós-guerra desses heróis. A grande real é que muitos dos guerreiros estariam exauridos naquela ressaca, apesar de sua resistência quase mágica, e seria fundamental que umas garotas loiras e saudáveis pudessem lhe fazer companhia naquele momento frio e solitário. Numa mesa de madeira comendo javali e carne de porco.

A única certeza desses guerreiros odisseicos é que cada batalha será um passo à frente no longo caminho que é a vida. Algum dia, nossos guerreiros chegariam ao final das constantes lutas e seriam amparados somente por aquela que seria a ressaca que acabaria com todas as ressacas. Até hoje, a lenda permanece viva em diversas mesas de madeira e a distância da batalha final parece cada vez menor.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sobre o trabalho e a ressaca humana



Gosto daquela parte de A Revolução dos Bichos quando o porco ditador bandido Napoleão entra numa cachaçada com seus boys e acaba arrebentado na manhã seguinte.

A cabeça em chamas era extrema demais e o puro sabor de desgraça misturada com cerveja estragada e cigarro Rei V falsificado estavam lá, além da ressaca moral ditatorial que é naturalmente tão mais intensa que as outras e se fazia presente também. Logo os outros porcos assumiram que seu líder havia morrido. O ardor ocular ao ver luzes fortes, a barriga em dor profunda, a vontade de defecar e a moleza física deste membro renegado, além do notável desejo de não sair da cama e a falta de apetite revelam para aquele indivíduo que bebeu demais que sua vida chegara ao fim.

Imagino que o primeiro trabalhador que caiu numa ressaca cometeu o erro de pensar estar morrendo: ligou pro chefe alegando que já tinha vomitado quatro vezes aquela manhã e se cagado todo umas duas vezes, e então estava morrendo, mesmo. Xingou o chefe de "putinha" e explicou para ele que não voltaria mais ao trabalho de bandido vendido e considerou sua eterna liberdade espiritual, já que a liberdade física já havia sido tomada pelo seu labor sanguessuga e a liberdade do corpo estava toda cagada e com cheiro de morte.

Morri, chefe, morri. Minha cabeça está em chamas e meu coração não mais pertence às entranhas de sua verdade econômica. Jogue-se nas chamas do inferno e lembre-se que todos os trabalhadores que aí estiveram não continuaram por vontade de agradá-lo e sim pela necessidade de moedas para o sagrado pão diário. E destas moedas alguns retiram o elixir da vida e o bebem com tanta vontade de encontro com a verdade que a própria bebida suga sua essência e clama por um novo caminho: a inexistência.

Essas foram as primeiras frases ditas ao chefe por parte do trabalhador experiente no cumprimento de tarefas e inexperiente no alcoolismo insociável, até ele cagar mais umas duas vezes e conseguir comer o pão diário de ontem com um copo de água, lá perto das duas da tarde, o que cortaria sua ressaca e o traria de volta à empolgante chama da vida.




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